A luta pelos direitos da mulher

O ex-senador, de 85 anos, ser enterrado hoje no Cemitrio So Joo Batista

O ex-senador Nelson Carneiro, 85 anos, um dos mais ativos legisladores da poltica brasileira durante 48 anos, morreu ontem, s 18h50, em casa, em Niteri. O governador do Rio, Marcello Alencar, e o prefeito Csar Maia decretaram luto oficial por trs dias no estado e no municpio. O corpo est sendo velado na Cmara Municipal do Rio e o enterro ser hoje, s 17 horas, no Cemitrio So Joo Batista. Sua filha, a deputada federal Laura Carneiro, contou ontem que seu pai conversava com um amigo quando morreu. Nelson Carneiro tinha recebido alta hospitalar h poucos dias, depois de serecuperar de uma anemia e submeter a cirurgia abdominal laparoscpica feita em dezembro, em So Paulo. O ex-senador h 15 anos teve um cncer no estmago. O ex-senador esteve internado de 16 a 31 de janeiro, no Hospital Samaritano, no Rio, depois de passar 40 dias no Hospital Srio Libans, em So Paulo, para se recuperar da cirurgia. Os mdicos tinham conseguido reverter um quadro de desidratao e desnutrio.

Em 1980 teve que ser operado de diverticulite (inflamao na parede do intestino grosso) com urgncia em So Paulo. Em novembro de 92 foi internado na Casa de Sade So Jos, no Humait, por causa de um derrame cerebral. Em 1972 j tinha sofrido acidente vascular cerebral no Mxico, por causa da altitude. Desta vez seu diagnstico foi hipertenso. Em novembro de 94, foi internado no Hospital Samaritano, em Botafogo, por causa de um stress. Fez exames de rotina.

O presidente Fernando Henrique Cardoso disse ontem, em Braslia, que "Nelson Carneiro dedicou toda sua vida  defesa e consolidao da democracia. Foi tambm um dos principais arautos dos direitos da mulher no Brasil. Sua morte nos deixa tristes. Durante longos anos, ele iluminou os debates no Congresso Nacional."

A morte do ex-senador foi recebida com pesar no Congresso Nacional. A sesso plenria de hoje no ser suspensa, mas se transformar em homenagem  sua memria. "Ele foi a imagem do homem dedicado ao parlamento", disse ontem o presidente do Congresso Nacional, senador Jos Sarney (PMDB-AP).

Os dois senadores que o derrotaram na eleio passada foram os que mais choraram o desaparecimento do ex-parlamentar. "Sempre lamentei t-lo derrotado, mas no fui s eu. No se esquea da Benedita", disse o senador Artur da Tvola (PSDB-RJ). Mas a senadora petista lembrou: "Nelson, junto com o PT, apoiou o PDT a meu pedido".

Mas Artur da Tvola no quis relembrar as crticas feitas por Nelson ao governador do Rio, Marcello Alencar, no discurso de despedida do Senado, quando chamou o governador de "judas carioca", e o acusou de prejudicar sua tentativa de reeleio. "Foram resqucios da campanha eleitoral", deixou escapar Tvola.

Para ele, Nelson Carneiro " um dos poucos parlamentares que podem se orgulhar de ter uma obra legislativa completa, marcando a mudana na face da sociedade brasileira". A senadora Benedita da Silva (PT-RJ) reagiu com emoo: "Perdemos o grande parceiro na luta pelos direitos das mulheres. Nelson deve ser lembrado como o senador amigo das grandes causas feministas", disse a senadora.

Nelson Carneiro era casado com Carmem e tinha trs filhos do seu primeiro casamento: Jorge Miguel, 42 anos; Luza, 40 anos e Laura, 32 anos.

Um poltico obstinado, caxias, defensor dos direitos da mulher e extremamente emotivo. Com esse perfil, os 65 anos de vida pblica de Nelson Carneiro se confundem com a histria poltica do pas. Depois de cinco mandatos como deputado, trs como senador e 32 horas como presidente da Repblica - em 1990, durante uma viagem de Jos Sarney -, Nelson Carneiro  considerado um dos mais destacados legisladores, com mais de 500 projetos, a maioria convertida em leis.

Mas, sem dvida, a Lei do Divrcio, aprovada em 1977, foi a mais famosa de sua biografia poltica. A conquista ocorreu depois de 30 anos de luta contra a Igreja Catlica, apesar de catlico praticante fervoroso, devoto de Nosso Senhor do Bonfim - como todo bom baiano - e at coroinha durante a infncia. Nelson Carneiro atribuiu a derrota nas eleies de 54 para a Cmara de Deputados por sua defesa obstinada ao divrcio. Tambm foi autor do projeto que previa a equiparao da mulher casado ao marido (Lei nmero 4.121) e do que assegurava penso aos filhos de qualquer condio.

A derrota de 54, no entanto, no foi a maior decepo sofrida por Nelson ao longo de sua vida pblica. Ela veio 40 anos depois, quando o senador, ento filiado ao PP, concorreu  reeleio na coligao PSDB/PP/PFL/PL, ao lado do ento candidato ao governdo do Rio Marcello Alencar. Em uma entrevista emocionada - que o levou s lgrimas -, no dia 7 deste mesmo ano, Nelson Carneiro anunciou seu rompimento com Marcello.

Nelson Carneiro atribuiu sua derrota ao empenho do tucano em eleger somente o outro candidato ao Senado da chapa, Artur da Tvola (PSDB). "Fui trado calculadamente e a sangue-frio", desabafou. Nem mesmo o ento candidato  presidncia da Repblica, Fernando Henrique Cardoso, escapou da mgoa do senador, que o criticou pela omisso diante do fato. Na poca, Nelson divulgou documento desfiando uma sucesso de episdios em que Marcello favorecia Tvola.

Entre as provas, o senador citou a ausncia de outdoors com fotos suas - apesar de ter posado ao lado de Marcello e Tvola - e chegou a dizer que no era convidado a participar dos eventos de Fernando Henrique que, junto com Marcello e Tvola, percorria o Rio no avio do "feliz banqueiro" Ronaldo Csar Coelho. Tambm no perdoou o fato de uma emissora de TV ter registrado a imagem de Marcello votando apenas em Artur da Tvola para o Senado. Depois do incidente, Nelson apoiou, no segundo turno, a candidatura do pedetista Anthony Garotinho ao governo do estado.

Enxugando as lgrimas em um leno branco, ele afirmou na entrevista que esperava, at o fim do mandato, aprovar um projeto que garantia s mes o direito de escolher com quem ficaria a guarda dos filhos aps a separao. "Sempre me comovo com aos causas ligadas  mulher", justificou. Esta, no entanto, no foi a nica ocasio em que Nelson deixou extravasar a emoo. Chorou tambm em fevereiro de 95, ao ouvir o Hino Nacional durante sua despedida do Senado Federal.

Nascido em Salvador, em 1910, Nelson cursou Direito na Universidade Federal da Bahia. L teve seu primeiro contato com a poltica, filiando-se ao Partido Democrtico Universitrio da Bahia. Em 1929, iniciou sua carreira jornalstica em O Jornal. Especialista em direito da famlia e em direito das sucesses, comeou a se sensibilizar com os dramas das famlias constitudas que no podiam ser legalizadas. Em 45, filiou-se  Unio Democrtica Nacional (UDN) e foi eleito suplente de deputado pela Bahia  Assemblia Nacional Constituinte. Como jornalista, Nelson fez a cobertura do evento para o JORNAL DO BRASIL, onde escreveu como colaborador at a dcada de 70.

Em 47, assumiu uma cadeira na Cmara, participando da Comisso de Legislao Social e da Comisso Especial de Proteo  Natalidade. Trs anos depois, foi eleito deputado federal pela Bahia. Em 53, filiou-se ao Partido Libertador (PL). Mudou-se para o Rio e, em 58, elegeu-se pelo Partido Social Democrtico (PSD) carioca. Com a transferncia da capital para Braslia, passou a representar o estado da Guanabara. Eleito vice-lider do PSD, presidiu a Comisso Parlamentar de Inqurito (CPI) sobre o petrleo e a Comisso de Constituio e Justia da Cmara.

Em setembro de 61, aps a renncia do presidente Jnio Quadros, relatou e conduziu a votao da Emenda Constitucional nmero 4, que instituiu o parlamentarismo no Brasil. Continuou a carreira poltica no Movimento Democrtico Brasileiro (MDB). Nas eleies para o Congresso, em 1978, foi ele quem desafiou a proibio de se fazer campanha nas ruas, ao comandar uma passeata na Avenida Rio Branco, enfrentando o cerco de mais de mil soldados. Nesse mesmo ano ele acrescentou a sua biografia outro feito eleitoral, ao eleger-se com mais de 2,2 milhes votos.

